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Todo sistema religioso tem seus pontos fundamentais e indiscutíveis aos quais chamamos de dogmas. São “verdades” aceitas sem discussão, apenas pela fé. No sistema cristão, em especial, os pontos fundamentais que sustentam essa crença são defendidos por seus teólogos com afirmações de que os mesmos só podem ser entendidos por aqueles iluminados pelo espírito santo, sendo isto também um outro dogma cristão. Isto é útil para afastar os questionamentos daqueles que não corroboram com essas idéias, pois estes “infelizes não receberam as graças de Deus” ou “não conheceram Jesus”. É bem sofisticado e engenhoso: dogmas para defender dogmas! Se aquele que não acredita no dogma não pode questioná-lo, quem o fará? 

 Mas quando sabemos quando um dogma é verdadeiro? E quando o dogma é verdadeiro, necessitamos dele? Acaso a verdade precisa ser dogmatizada? E se uma verdade estiver dogmatizada, isso é bom? E, finalmente, será que precisamos mesmo de um dogma?

A verdade não pode ser absoluta, porque ela é conceito que emitimos sobre uma proposição. Quando as pessoas afirmam que existe uma verdade absoluta, estão se referindo a uma proposição ser sempre verdadeira, ou seja, permanecer imutável independente de contextos. Uma proposição não é necessariamente eternamente verdadeira. Ela pode ser verdadeira diante de determinadas circunstâncias, e num dado momento pode não ser mais.  Novos dados acrescentados à avaliação da proposição podem alterar o julgamento que fazemos dela.

 Podemos dizer, humildemente, que uma afirmação é verdadeira por enquanto. Não sabemos se novos dados podem surgir e desmontar essa verdade. Ou seja, parafraseando o poeta, que a verdade seja eterna enquanto dure. E nesse tempo, nos é útil. Mas não devemos nos amarrar apaixonadamente, pois ela pode nos decepcionar a qualquer momento. Se uma verdade afunda, e estamos algemados a ela, afundamos juntos.

Quando uma pessoa aceita um dogma, não pode testar se ele é de fato verdadeiro. Isso é se algemar a uma verdade. 

Como nasce um dogma? Alguém julga que uma determinada proposição é verdadeira, e em seguida, julgando-a muito importante, a cristaliza, tornando-a imutável, porque também partem do princípio que essa verdade é absoluta, ou seja, nunca vai mudar.  Como fica a situação por exemplo, daqueles que acreditam ainda no Dogma de Adão e Eva, no Mundo de hoje, depois de descobertas arqueológicas, avanços científicos, Darwin, Big Bang e etc… Quem conseguiu questionar o dogma e vê-lo não como uma verdade, mas uma analogia, ainda pode vê-lo de outra maneira, porque não o vê dogmaticamente, mas mesmo assim, não pode provar ser verdade, ainda é questão de fé, quem ainda afirma por exemplo que Deus literalmente fez a mulher de uma das costelas de adão, seria considerado no mínimo um ingênuo.

Será que quem engessou o julgamento sobre essa proposição como sendo uma eterna verdade, estava de posse de todos os dados? Teria ele intenções justas, honestas ou será que interesses espúrios o levaram a formular esses dogmas? E mesmo tendo nobres intenções, será que novas descobertas não invalidariam esse antigo julgamento?

Não existe em medidas humanas de conhecimento “A Verdade”, pois esta seria necessariamente uma verdade absoluta, e portanto eterna, ou enquanto existir o Universo, já que nada existe fora dele – e mesmo que existisse, não nos teria utilidade, pois estando completamente fora do Universo, não teria influência sobre nada dentro dele. E não poderíamos atribuir valores sobre essa entidade, nem seria de importância ou conhecimento nosso o valor que ela atribuísse. Assim sendo, A Verdade absoluta presume um conceito fornecido pelo Universo em sua totalidade e detalhe, a única entidade que poderia conhecer a verdade seria o Criador deste mesmo Universo, nossas verdades absolutas são fruto de nossa ignorância e arrogância. Nossas verdades menores, em constante julgamento e aperfeiçoamento são frutos do que torna a Raça Humana tão espetacular em alguns sentidos. O Intelecto, o poder crítico e criador, o que chamam de Centelha Divina.

Para julgar se um dogma é verdadeiro, precisa-se antes de tudo não ser partidário dele. Uma pessoa que esteja presa ao dogma jamais aceitará contestá-lo, por definição.

Se um dogma é verdadeiro, mesmo assim não precisamos dessa verdade como dogma, porque podemos concluir que se trata de uma verdade fazendo os mesmos experimentos que aquele que o formulou. E se o experimento não puder, por acaso, ser refeito, então essa verdade não é de grande valia, pois não possui um caráter verídico.

Podemos usar um exemplo para verificar se realmente precisamos dogmatizar uma verdade. Um corpo, abandonado no alto, tende a cair. Sempre observamos isso. Tem sido verdade por muito tempo. Tudo nos leva a crer que seja sempre verdade, as pessoas têm então compulsão de afirmar que se trata de uma verdade absoluta. O que aconteceria se tivéssemos dogmatizado essa proposição? Teria Newton formulado as suas leis acerca da gravidade se tivesse aceito isso como dogma? Teria Einstein formulado a Teoria da Relatividade? Lembre-se, dogma é uma verdade aceita sem contestação, não se deve questionar, não se deve buscar o porquê. Sem as Leis de Newton, sem as teorias de Einstein, não teríamos muitas das evoluções tecnológicas, desde as modernas pontes, aviões e outros prodígios da engenharia até as conquistas espaciais. Toda a nossa compreensão do Universo estaria comprometida. 

 

 

Nada de Big Bang, nada de Buracos Negros, não compreenderíamos como as estrelas evoluem até seu colapso, não saberíamos explicar porque os planetas giram ao redor do Sol, nem porque não caímos da Terra, sendo ela redonda, o que contraria outro dogma. Um mundo sem comunicação via satélite, sem física quântica, sem mais o que explorar.

 

E se você estiver tentado a pensar: “bem, mais se Newton não formulasse sua teoria, tudo bem: outro o faria”, devo lembrar-lhe que dogmas são inquestionáveis. Você não precisaria explicar porque as coisas caem. É assim, e pronto. “Mas e se alguém, apesar do dogma, tentasse questionar e formulasse a tal teoria?” Então eu lhe respondo: essa pessoa teria que ser livre, não estar presa ao dogma, por definição. Quem crê em um dogma dispensa a necessidade de pensar mais sobre o assunto.

É ruim dogmatizar mesmo uma verdade.  Se é ruim dogmatizar uma verdade, o que dizer de uma mentira? Se um dogma é religioso, e alguém contesta esse dogma, então essa pessoa é acusada de heresia. Dependendo da época e do lugar que você viva, você pode ser condenado e levado à fogueira por isso. 

Concluímos que dogmatizar é sempre errado para quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas. 

Sendo assim, não precisamos de dogmas. E esta proposição, por sua vez, não é em si um dogma, como querem alguns. É apenas uma conclusão lógica, que pode ser contestada, testada, e refutada. Se provar-se falsa, não estarei algemado a ela. Mas enquanto se provar verdadeira, posso usá-la como ferramenta para outras conclusões, como por exemplo: “não precisamos de dogmas, logo as verdades fundamentais das religiões são, sim, questionáveis, e todos têm o direito de fazê-lo”.

O Fanatismo, s.m. Paixão cega que leva alguém a excessos em favor de uma religião, doutrina, partido etc. é caracterizado pela convicção obsessiva de que todos os aspectos da vida devem se subordinar incondicionalmente a um único e determinado aspecto, pode ser motivado pelas mais diversas paixões: da política ao esporte; mas é na religião que o fanatismo encontra sua forma mais pura e individualmente mais destrutiva.

Todo fanático assimila como verdade inquestionável a doutrina que alimenta o seu fanatismo. Doutrinas de natureza laica, como as ideologias políticas, são capazes de produzir terror e destruição em grau superior ao que podem fazer hoje aquelas de natureza religiosa. Como a maioria dos países estabelece a separação entre religião e estado, somente o fanatismo político pode mobilizar recursos para destruição em massa, como fez o Nazismo e o Stalinismo.

Se por um lado o fanatismo político possui maior capacidade de destruição física, o fanatismo religioso é muito mais poderoso no que se refere destruição do indivíduo.

É comum vermos fanáticos políticos mudarem de posicionamento quando os ventos da História mudam de direção. Após a derrota, nazistas convictos se diziam “chocados” com os campos de extermínio que ajudaram a construir e comunistas “fanáticos” se converteram em empresários milionários na Moscou pós-queda do muro de Berlim. O fanatismo político está fortemente associado a oportunismo.

Já o fanático religioso é arrasadoramente sincero. Ele não está interessado em recompensas “nesta vida” ou “neste mundo”. Seu desprendimento da realidade é tão grande que nenhum fator dessa realidade é capaz de impor restrição ou limite aos atos motivados pela convicção fanática.

Ao dedicar-se ao que chama ou considera como alma, o fanático nada mais faz além de destruí-la e destruir-se, uma vez que todos os elementos de sua personalidade que o definiam como um indivíduo único são pulverizadas e remodelados pelas formas doutrinárias definidas pelo dogma religioso. Redefinido em todos os seus princípios e valores, o fanático religioso amará o que a religião diz que deve ser amado e odiará o que a religião diz que deve odiado, e o fará, ao contrário do fanático político, com a mais absoluta sinceridade, sem fingimentos ou segundas intenções.

O religioso que ouvisse isso poderia argumentar que se ele for fanático por uma crença que manda amar a todos e odiar a ninguém então nenhum mal poderia resultar deste fanatismo. Mas diz Pedro Vergara em seu livro “Fanatismo e Homicidio”:

Errado. Perigosamente errado. Nenhum ato construtivo pode vir de uma personalidade fanática simplesmente porque os valores construtivos foram destruídos dentro dele. Os únicos valores que lhe restaram são aqueles especificados pelo dogma. Assim para o fanático, amar alguém é trazê-lo para o seu grupo, convertê-lo, pela força se necessário.

Em seu estágio final e completo, o fanático religioso rompe seus últimos vínculos com a realidade. Se a realidade contraria o dogma, então a realidade é o inimigo e deve ser combatida, assim como devem ser combatidos aqueles que sustentam que a realidade e não o dogma representam a verdade, ou algo mais próximo dela

Atingido este estágio, o fanático abandona o último valor que competia com o valor dado ao dogma: o respeito pela vida, seja a dos outros ou a sua própria. Se a realidade tornou-se um inimigo a ser combatido, o assassinato (individual ou em massa) pode ser visto como uma missão divina a ser cumprida e a própria morte no “martírio”, como uma graça a ser conquistada.

O que torna cada ser humano especial é o fato de ser um indivíduo único. Em cada mente existe uma luz rara, com um brilho particular que não pode ser reproduzido em nenhuma outra. Aquele que cede ao fanatismo atenta contra o brilho da própria individualidade, apaga sua própria luz e mergulha na escuridão.

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